O transtorno obsessivo compulsivo homossexual é um sub-tipo de TOC (transtorno obsessivo compulsivo), no qual surgem imagens e pensamentos intrusivos, bem como impulsos e dúvidas em relação à orientação sexual.

No cerne da questão há um medo repentino ou constante de, sendo um indivíduo heteressexual se tornar homossexual, o que leva a um conjunto de rituais e de compulsões mentais para se assegurar da sua verdadeira identidade. Isto não tem relação com uma homossexualidade reprimida, pois o indivíduo tem consciência da sua orientação real, mas os pensamentos de dúvida intrometem-se e criam uma dúvida. Depois gera angústia, pelo medo de se tornar numa coisa, que no fundo não deseja, o que cria um ciclo vicioso.

Os pensamentos obsessivos parecem credíveis, mas são indesejados e irracionais. Uma boa parte do sofrimento nesta situação é devido à ilusão de que um pensamento forte e uma ação são equivalentes. Mas a realidade é distinta do que pensamos. Podemos pensar milhares de vezes em coisas indesejadas, como “fazer mal em alguém”, mas o nosso comportamento real é pacífico. Da mesma forma que podemos pensar que “posso ter atração por aquela pessoa” mas isso não muda a orientação sexual.

Estas obsessões são ativadas por pessoas ou sinais ligados à homossexualidade, como ver uma bandeira, pessoas atrativas, objetos ou um bar gay e de repente ter uma emoção forte, acompanhada por dúvidas como “será que sou gay escondido? e se me tornar de repente? serei lésbica e não sei? “. Estes pensamentos não são desejados nem escolhidos, mas fazem sentir-se compelido a repetir comportamentos específicos e verificações da sua “verdadeira” sexualidade. Por exemplo, tentar masturbar-se para ver se tem prazer a observar homens, afastar-se de qualquer coisa homossexual (por medo de tornar-se gay) ou verificar se está realmente atraído por alguém, são compulsões típicas.

No HOCD, o indivíduo não consegue evitar certos pensamentos ou comportamentos que colocam em dúvida a sua orientação sexual, levando a ter medo de ser atraído por membros do mesmo sexo. Na realidade, a sua orientação sexual verdadeira é heterossexual, mas os pensamentos intrometem-se na mente, como por exemplo, como “vais ser atraído por homens” ou “tu gostas de homens”. E isto também pode acontecer com homossexuais.

Sinais e sintomas

O HOCD leva ao receio de que os pensamentos obsessivos tomem conta da consciência e que alterem a real orientação sexual. Isto leva a um aumento da ansiedade, e posteriormente a piorar o desempenho sexual, o que aumenta o medo de a obsessão tomar conta do indivíduo. Os pensamentos intrusivos podem-se intrometer em qualquer situação, como sentir um forte de impulso de atração por alguém, quando é apenas uma resposta obsessiva, e não uma verdadeira atração sexual. Este conflito entre o HOCD e a real orientação leva a uma procura constante de tentar verificar e garantir a orientação sexual, mas isto apenas aumenta o ciclo vicioso.

Compulsões no HOCD:

Analisar o passado para verificar se houve alguma “tendência” homossexual ou algum sinal “suspeito”

Estar sempre a pensar na orientação sexual, como forma de tentar controlar a verdadeira orientação

Olha para pessoas atraentes, como forma de “testar” a sua orientação sexual

Verificar se está “excitado”, na presença de pessoas da orientação que não é a verdadeira. Por exemplo, no caso de ser um homem heterossexual, verificar se tem alguma reação perante outros homens.

Viver com HOCD

Quando a HOCD se instala, a vida pode ser angustiante, pois ocupa uma boa parte do pensamento habitual, além do medo de poder ter uma orientação, que no fundo, não deseja.

Terapia Cognitivo- Comportamental e ACT

A Terapia Cognitiva e as técnicas de aceitação plena são eficazes para ultrapassar a situação.

São recomendadas cerca de 10 a 20 sessões para o trabalho nas seguintes questões:

  • Compreender os erros de interpretação, como os rituais agravam a questão, a manutenção dos pensamentos
  • Compreender que tentar controlar o pensamento apenas o torna mais forte
  • Compreender a diferença entre orientação sexual e os pensamentos obsessivos
  • Aprender a observar, sem julgar ou reprimir os pensamentos e obsessões.
  • Aprender técnicas de aceitação plena, como o desapego consciente dos pensamentos e a observação dos pensamentos a partir da “varanda”.
  • Expor-se gradualmente aos estímulos, objetos, situações que desencadeiam as obsessões
  • Gerir a ansiedade e as emoções

Objetivo final da terapia para HOCD

  • É que a pessoa deixe de organizar a vida em torno de “provar” a orientação (testes mentais, “checkings”, evitar gatilhos) e que passe a viver a vida em torna daquilo que valoriza realmente (intimidade, honestidade, respeito, prazer, projeto de vida), mesmo com pensamentos intrusivos presentes.
  • Que pensamentos/imagens de conteúdo homossexual/heterossexual sejam vividos como “eventos mentais” (coisas que a mente produz), e não como provas de quem a pessoa “é” ou do que “vai fazer e abandonar a necessidade de ter a certeza absoluta.

A psicoterapia psicodinâmica pode agravar o TOC/ HOCD!

  • Se for usada como único tratamento principal em TOC moderado/grave, sem EPR nem abordagem cognitiva e de aceitação plena (ACT), o paciente pode passar anos em análise com pouca redução de compulsões e grande sofrimento. Analisar o significado de pensamentos obsessivos agrava o próprio processo de ruminação, ao alimentar o Eu pensante com mais questões e dúvidas, num diálogo interminável. Um das armadilhas do TOC é responder às suas infinitas dúvidas, quando a solução é aceitar que não precisamos de certezas, nem de provar que o pensamento não é verdadeiro.
  • O trabalho excessivo em “interpretações” do conteúdo das obsessões (por exemplo, sexual/agressivo) , do género “o que significa ter atração por…?” pode reforçar a ideia de que os pensamentos “significam” algo profundo sobre o Eu, aumentando fusão e culpa, exatamente o oposto do que queremos em TOC/HOCD. O TOC não tem qualquer significado, é apenas parte do ruído natural que a mente produz.
  • Há relatos de que abordagens puramente analíticas, sem exposição, não abordam o componente comportamental central (rituais, evitação), está associado a pior prognóstico.

Bibliografia:

Foa EB. Cognitive behavioral therapy of obsessive-compulsive disorder. Dialogues Clin Neurosci. 2010;12(2):199-207. doi: 10.31887/DCNS.2010.12.2/efoa. PMID: 20623924; PMCID: PMC3181959.

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One thought on “Transtorno obsessivo-compulsivo homossexual (HOCD)

  1. No caso do HOCD, existe uma compulsão frequente que é testar se a orientação sexual verdadadeira- a heterossexual- continua a existir. Daí testar essa orientação, por exemplo com videos gays para comprovar que não existe excitação a ao ver este tipo de videos. Contudo, não é uma forma fiável porque a ansiedade pode levar a uma excitação não desejada; e a excitação eventual, não significa nada de especial. Em qualquer caso, é inútil qualquer compulsão pois não há nada que precise ser verificado/ testado.

  2. Eu tenho este transtorno já faz 9 anos, é muito sofrido, porque é tudo pode despertar um pensamento e/ou sensação. Te deixa confuso, mesmo sabendo que é o transtorno.
    Faço terapia eficiente faz 7 anos, tem me ajudado muito, mas ainda me perturba muito.
    É bom ver que há profissionais que nos compreende e nos ajuda a melhorar, obrigada por escrever este artigo.

  3. Não sei ao certo se é hocd, mas tenho um medo forte de ser o que na mente não me vêm como algo que eu seja realmente. Fiz e vi coisas como compulsões, como ver pornógrafia de todo tipo, mesmo eu já sendo viciado antes, e até tive contato com vários tipos antes. Mas depois eu via apenas a que me normal, e recai vendo outras depois na escalada de gêneros novamente.

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