Consequências do Preconceito Social em Gays e Lésbicas
Psicologo Clinico Dr Fernando Lima Magalhaes
 
 

Consequências do preconceito social exercido contra gays, lésbicas e bissexuais e suas repercussões psicológicas

 

 

Todos estamos mergulhados num "caldo cultural", onde sentimos e pensamos em relação às pessoas e acontecimentos. Todavia, algumas pessoas, poderão ser alvo de uma atitude favorável ou desfavorável, apenas pelo facto de serem percebidas como pertencentes a um grupo particular.

Por exemplo, em relação às variáveis sexo e  género, poderíamos pensar num grupo de homens e noutro de mulheres. Imaginemos que existia uma oferta de emprego de motorista de autocarro, e que decorreu um processo de selecção, mas só foram seleccionados homens. Imaginemos que quem seleccionou os motoristas acreditava que só os homens é que seriam capazes e competentes para uma boa condução dos veículos, e baseado neste preconceito, não deu sequer oportunidades às mulheres para comparecerem a uma entrevista. A crença do "seleccionador" teve por base um preconceito sexual, porque as mulheres foram avaliadas, a priori, apenas por serem "mulheres" e não pelas características individuais, independentemente do sexo/ género. Até há poucos anos, esta poderia ser uma crença geralmente aceite como verdadeira, mas hoje encontramos mulheres a conduzir veículos pesados de forma tão competente quanto os homens.

Assim, o  preconceito pode ser definido como "atitude favorável ou desfavorável em relação a membros de algum grupo baseada sobretudo no facto da pertença a esse grupo e não necessariamente em características particulares de membros individuais" (Neto, 1998).

Muitos tipos de grupos podem ser alvos de preconceitos e por isso, existem várias categorias de preconceito e discriminação. O racismo é o tipo de preconceito mais frequente, logo seguido pelo sexismo, como vimos no exemplo anterior, (discriminação baseada no género) e pelo idadismo (discriminação baseada na idade).

Uma das razões que estará na origem do preconceito e discriminação, será o estereótipo, que será um conjunto de crenças sobre os atributos pessoais de um grupo de pessoas ou seja, são as características que um indivíduo atribui aos membros de um grupo social. Frequentemente, o estereótipo é uma generalização e uma ideia excessivamente simplificada e errónea de uma categoria de pessoas.

A categoria de preconceito associada à orientação sexual chama-se heterossexismo, que é um conjunto de crenças culturais, muito difundidas, e de valores, que define a heterossexualidade como a única forma válida de expressão sexual e estigmatiza e critica todas as formas não heterossexuais de comportamento (Herek, 1990). Todavia, as ciências sociais e humanas e a própria medicina, desde há décadas que concluíram que não existem diferenças psicológicas nos indivíduos em função da sua orientação sexual e que “a diferença básica entre homossexuais e as outras pessoas é apenas o seu comportamento sexual” (Dannecker, 1981). Esta conclusão da ciência culminou com a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais da Associação Americana de Psiquiatria, em 1973.

Ainda assim, é frequente a referência de um conjunto de estereótipos  em relação a homens homossexuais como a promiscuidade sexual, a emocionalidade, gostarem de arte e de música, de serem femininos e de serem criativos e complicados e também a referência de estereótipos em relação a mulheres lésbicas: serem “masculinas", terem cabelo curto e serem negativas com os homens. A própria psicologia e especialmente o modelo psicanalítico, serviu para perpetuar uma concepção da homossexualidade como algo de patológico (p. exemplo como resultado de uma dinâmica familiar desadequada- pai ausente, mãe hiperprotectora; como sintoma de uma personalidade narcísica, etc). Na realidade nunca se encontrou evidência científica para isto e os estudos indicam que os antecedentes de hetero e homossexuais são os mesmos.

 Outro problema actual é uma possível interpretação da homossexualidade como algo de patológico , por alguns técnicos (psiquiatras e psicólogos), que conduzem " a terapias desajustadas e a enviesamentos na avaliação dos clientes" (Moita, 2001). Esta leitura patológica da homossexualidade é obsoleta há décadas, mas foi encontrada no discurso de técnicos portugueses, sendo "configurada como um défice", para além de alguns clínicos terem mesmo construído uma categorização da homossexualidade, "preenchida por um discurso preconceituoso" (Moita, 2001). Esta situação é paradoxal porque em vez de estas pessoas conseguirem um maior bem estar com a terapia, podem ainda ficar com mais crenças negativas, e sentirem-se pior, devido a um "psi" preconceituoso. Por isso é fundamental recorrer a um técnico que aceite incondicionalmente as diversas orientações.

A homofobia será uma manifestação mais activa e severa do preconceito. Pode ser definida como  medo ou desprezo pelos homossexuais e uma repulsa face às relações afectivas entre pessoas do mesmo sexo e/ ou ódio generalizado aos homossexuais. Em 1976, Lehne (re) define homofobia como "um medo irracional ou intolerância relativamente à homossexualidade".

Não será difícil relembrar alguns acontecimentos em Portugal que ilustram o heterossexismo/ homofobia:

- Censura ao beijo de duas alunas numa Escola Secundária em Vila Nova de Gaia (Novembro 2005)

- Reacções violentas dos vizinhos de Helena Paixão e de Teresa Pires, o casal que o Estado recusou casar (Fevereiro 2006).

Poderíamos enumerar um conjunto de situações que, não raramente, são experiênciadas pelas minorias sexuais: perda de emprego, perda de custódia de crianças, ser discriminado, sofrer violência física, esconder a orientação sexual no trabalho ou mesmo ouvir piadas anti- homossexuais. Mas a discriminação e o experienciar tratamentos negativos da sociedade relaciona-se com um maior número de problemas psicológicos (Meyer, 1995). Não é de estranhar que crescer numa cultura que frequentemente transmite mitos e estereótipos, por vezes muitos negativos, eles sejam assimilados por todos nós, e internalizados pelos homossexuais, chocando com a sua identidade. Isto pode corromper fortemente o sentido de valor pessoal e de auto- estima ("vou beber para esquecer, "não interesso a ninguém", "eu não presto enquanto homossexual"). Estas atitudes e sentimentos negativos, internalizados no homossexual, estão relacionados com depressão, ansiedade, alcoolismo, abuso de substâncias, distúrbios alimentares, ideias suicidas e suicídio. Todavia, muitos gays e lésbicas têm vidas extremamente felizes, saudáveis e produtivas (Bradford, Ryan & Rothblum, 1994)

Alguns autores falam no "stress das minorias"  (Virgínia Brooks, 1981), como resultado da estigmatização. A causa inicial deste stress é uma atribuição cultural de status inferior a grupos particulares. Esta atribuição  de "imperfeição" ou "defeito" pode dirigir-se a várias categorias de pessoas, especialmente categorias baseadas no sexo, raça e orientação sexual, podendo originar acontecimentos negativos na vida do membro minoritário.

Consequentemente, se a cultura transmite a ideia  de que só a heterossexualidade é válida e "normal", e reprime, discrimina e nega outras possibilidades não heterossexuais, não é de admirar que alguns homossexuais tenham sentimentos de exclusão, isolamento e solidão que frequentemente conduzem à ansiedade e depressão. Neste contexto cultural, será mais difícil desenvolver um auto- conceito positivo e é frequente a vivência de um conflito entre a pressão social para a heterossexualidade e a motivação homossexual. Mas, gays e lésbicas, em média, não diferem dos heterossexuais em ajustamento psicológico (Gonsiorek, 1991).

Provavelmente, a consequência mais negativa do preconceito social será a Homofobia Internalizada, que é a internalização, pelo próprio homossexual, das atitudes negativas da sociedade e a incorporação de sentimentos negativos na sua auto- imagem, no que resultará uma hostilidade face à sua orientação sexual (Herek, 1996). Outros grupos sociais poderão também interiorizar preconceitos em relação ao seu grupo social, como os negros e as mulheres.

Potencialmente, este stress pode provocar prejuízos na saúde sobre os membros da minoria sexual, mas nem todos os membros podem sentir estas consequências.

Apesar da homofobia, lésbicas e gays não diferem dos heterossexuais na adaptação psicológica (Gonsiorek, 1991), havendo mesmo muitas situações em que é vantajoso uma orientação sexual homossexual. A diferença é que, enquanto algumas pessoas aprendem a lidar com sucesso sobre este stress, outras têm mais dificuldade. Determinando quais são os factores relacionados com as repercussões positvas e negativas para a saúde, isto pode sugerir  direcções futuras para intervenções psicológicas com gays, lésbicas e bissexuais que têm dificuldade em lidar com o seu "status" minoritário.

A avaliação / investigação  deste stress tem sido operacionalizada de duas formas: avaliação do número de acontecimentos de vida negativos e de preocupações/ conflitos no dia-a-dia. Quanto maior for o número de acontecimentos negativos/ preocupações, maiores serão as hipóteses de depressão, dores de cabeça crónicas, humor negativo, etc.

No contexto da vida das minorias sexuais, ao experienciarem homofobia e estigmatização, e eventos negativos relacionados com a sua orientação sexual (perda de emprego, casa, custódia de crianças, violência ou discriminação), bem como situações perturbadoras  no dia-a-dia (ex: piadas anti-homossexuais), poderão ficar propensos a uma maior número de situações stressoras.

Fernando Lima Magalhães

(Texto apresentado na I Jornada Nortenha de Sexualidade Humana, em 14 de Dezembro de 2006, Porto )

 

Bibliografia Consultada (básica):

Bradford, J., Ryan, C., & Rothblum, E.D. (1994). National lesbian health care survey: Implications for mental health care. Journal of Consulting Clinical Psychology, 62, 228-242.

D'Augelli, A. (1998). Developmental implications of victimization of lesbian, gay, and bisexual youth. In G. Herek (Ed.), Psychological perspectives on lesbian and gay issues: Vol. 4. Stigma and sexual orientation (pp. 187-210). Thousand Oaks, CA: Sage Publications.

Gonsiorek, J.C. & Wenrich, J.D. (1991). The definition and scope of sexual orientation. In J.C. Gonsiorek and J.D. Weinrich (Eds.), Homosexuality: Research implications for public policy. (pp.1-12). Newbury Park, CA: Sage.

Herek, G. M. (1998). Stigma and sexual orientation: Understanding prejudice against lesbians, gay men, and bisexuals. Thousand Oaks, CA: Sage Publications.

Moita, Maria Gabriela (2001), Discursos sobre a Homossexualidade no Contexto Clínico: A Homossexualidade de Dois Lados do Espelho. Dissertação de doutoramento: Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto.
 

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Psicoterapia Afirmativa para Gays e Lésbicas

A Orientação Sexual

 

 
 

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