Obsessões e Compulsões

Obsessões e Compulsões

Quando a ansiedade prega uma partida com pensamentos e comportamentos…

Todos nós temos pensamentos estranhos, que conseguimos afastar ou que não nos causam grande incómodo. O pensamento é um processo muito rápido, algo involuntário em que nós não escolhemos deliberadamente aquilo que queremos pensar. Por isso termos uma imagem de uma cena violenta ou em que podemos fazer mal a alguém é habitual quando estamos com ansiedade, pois estes pensamentos tendem a desaparecer quando ficamos mais calmos. O estado de humor, pode por isso, influenciar um modo de pensar mais negativo. Mas quando os pensamentos aparecem fora de controlo, sendo tão intensos e intrusivos que nos obrigam a comportamentos e rituais para nos libertarmos dessas ideias e medos, poderá tratar-se do Transtorno Obsessivo- Compulsivo (TOC).

Preocupações excessivas com a limpeza, lavando as mãos inúmeras vezes, verificar se as portas e janelas estão fechadas, mesmo depois de ter acabado de as verificar 10 vezes, ficar ansioso porque os quadros ou objectos não estão ordenados simetricamente… tudo isto poderão ser sintomas do TOC.

Os sintomas do TOC são os seguintes:

Alterações do Comportamento: Rituais, repetições, evitações…

Alterações dos Pensamentos: Dúvidas, Preocupações excessivas, pensamentos “maus”, obscenos ou impróprios..

Alterações das Emoções: Medo, culpa, ansiedade, aflição, etc

Assim, a característica principal do TOC são as obsessões e compulsões. As obsessões são pensamentos, palavras, ideias, frases, etc que aparecem na consciência de maneira repetida e persistente. Juntamente com estes pensamentos, o indivíduo sente medo, culpa ou angústia e tenta afastar ou desaparecer estas ideias, que não consegue, mesmo com esforço e com muita vontade. O indivíduo com TOC tem consciência que estas ideias são absurdas ou irracionais, mas levam o indivíduo a fazer um comportamento (rituais ou compulsões) ou a evitá-lo.

A melhor forma de descrever o transtorno obsessivo- compulsivo é através de um conjunto de pensamentos indesejados, padrões de pensamento e de comportamento que são muito stressantes, improdutivos, geralmente muito desagradáveis e difíceis de controlar sem ajuda.

Alguns dos tipos de obsessões são as seguintes:

– Obsessões sobre excessiva responsabilidade ou medo de cometer erros: medo de cometer erros que prejudiquem alguém, medo excessivo por desastres ou de não fazer o suficiente para prevenir algo mau, medo de bater em alguém com o carro, etc

– Obssessões de agressão: medo de se ferir ou de ferir os outros; imaginar cenas horríveis ou medo de fazer mal a alguém por ter essas imagens violentas. Medo de fazer mal a si próprio (como evitar aproximar-se de lugares altos ou tocar em facas) quando não têm voluntariamente qualquer intenção de se prejudicar. Medo de um impulso de roubar ou insultar alguém, etc

– Obsessões de contaminação: preocupação excessiva por excrementos do corpo, como fezes, urina, sémen, etc. Preocupação excessiva por ficar contaminado por germes, micróbios ou outros resíduos como sangue ou pelos de animais e imaginar que pode contaminar outras pessoas.

– Obsessão por ordem e simetria: Preocupação excessiva por por ordem, exatidão e por os objectos não estarem exatamente como desejado, ver a perfeição na arrumação como o único padrão possível.

– Obsessões ligadas ao sexo: ter pensamentos, imagens ou impulsos indesejados sobre temas sexuais como masturbação, pornografia, etc. Ter pensamentos ou impulsos indesejados sobre homossexualidade , quando conscientemente sente-se heterossexual  ou ter pensamentos ou impulsos indesejados sobre heterossexualidade quando conscientemente sente-se homossexual. Ter pensamentos indesejados sobre molestar ou ser sexualmente agressivo.

– Obsessões sobre religião e moralidade, como ter medo intenso de cometer algum sacrilégio ou de não seguir devidamente a sua religião.

 

As compulsões são as acções (comportamentos) usados na tentativa de aliviar o sofrimento causado pelas obsessões. Os actos repetitivos são rituais, tentativas de ignorar ou reduzir as obsessões. Estes comportamentos são feitos em resposta a obsessões ou devido às regras que o indivíduo acredita que deve cumprir (lavar as mãos, verificar alguma coisa, contar, alinhar, etc). As compulsões permitem um alívio momentâneo da ansiedade.

Apesar de os rituais obsessivos (como lavar muitas vezes as mãos) ou os comportamentos de evitamento (como não tocar em objectos contaminados ou evitar aproximar-se de lugares altos) poderem momentaneamente aliviar a ansiedade, estes rituais e evitamentos tendem a agravar o TOC a médio prazo, porque as obsessões tendem a vir sempre. Com o passar do tempo, estes padrões obsessivos de pensar, sentir e agir intensificam-se ao ponto de passar a gastar muito tempo, energia em rituais e evitamentos, prejudicando o trabalho, a escola, o lazer, etc.

 

Não está sozinho (a) e há tratamento eficaz!

Os transtornos de ansiedade são o problema mais comum na área da saúde mental. Cerca de 20% dos adultos vai ter algum tipo de ansiedade severa num momento da sua vida. O TOC afeta 2 a 3% da população adulta, isto sem contar muitas pessoas que têm que experienciam obessões ocasionais e rituais, mas que não são suficientes para definir que aquela pessoa tem “TOC”. Muitas pessoas desenvolvem o TOC no final da adolescência ou início da idade adulta (por volta dos 20 anos) , quando se tornam mais independentes e com maiores responsabilidades. Não é tão importante lembrar-se como começou, mas sim começar por identificar pensamentos, emoções e comportamentos que está a experienciar para aprender a ultrapassar o ciclo vicioso com a ajuda terapia cognitiva- comportamental.

Por outro lado, os sintomas obsessivos podem fazer parte de uma personalidade obsessiva, que poderá existir quando alguns traços são muito generalizados e comuns ao longo da vida, como por exemplo uma grande preocupação com regras e detalhes (ao ponto de perder a eficácia ou o foco a fazer as tarefas), ser excessivamente dedicado ao trabalho ao trabalho e à produtividade, ser excessivamente rígido e inflexível ou ser demasiado consciente ou preocupado com ética e moralidade e dificuldade de se desfazer de bens inúteis como livros ou roupas sem uso.

 

Causas e Origens

Existem várias teorias biológicas sobre a origem do TOC, como problemas em algumas estruturas cerebrais ou um desequilíbrio na serotonina, para o qual alguns medicamentos poderão ajudar.

Todavia, há um papel central do pensamento e da emoção no desenvolvimento do TOC: muitas pessoas tiveram experiências stressantes, onde aprenderam a reagir ou a interpretar de forma obsessiva a partir daquilo que observaram, como por exemplo a partir de exemplos da família, amigos ou dos media, dos professores ou de alguém importante nas suas vidas. Outras pessoas sentiram um medo intenso quando ouviram falar de germes que podem ser fatais e a partir daí desenvolveram uma atenção excessiva ou sensação de perigo de que algo as pode contaminar. Outras aprenderam regras exageradas de ordem e simetria a partir da família. O TOC, em geral, evolui muito lentamente, pelo que é difícil de definir “gatilhos” específicos para o seu despoletar, para além de não ser necessário de encontrar “causas” para ultrapassar o TOC.

Existe uma combinação de factores biológicos/ genéticos bem como factores psicológicos, sociais, educacionais que interagem de maneira única para cada pessoa.

 

Tratamento

De acordo com a maioria dos peritos em TOC  (http://www.psychguides.com/ocgl.html ) , o tratamento de eleição para o transtorno obsessivo compulsivo é a terapia cognitvo- comportamental (TCC) que realizamos. Os medicamentos só proporcionam uma redução parcial dos sintomas, o que também pode ajudar à eficácia do tratamento.

Na terapia cognitiva- comportamental, que realizamos, são trabalhados os seguintes assuntos:

– Compreender como os sintomas do TOC são mantidos e como alimenta o ciclo vicioso das obsessões- compulsões. Identificar os gatilhos (que ligam a resposta de ansiedade/ stress), a intrusão obsessiva e a consequência temida ( ser contaminado; fazer actos maus, etc). Avaliar todos os sintomas obsessivos/ compulsivos.

– Compreender que 90 a 99% das pessoas têm pensamentos absurdos ou intrusivos e que o conteúdo das obsessões do TOC são as mesmas que a maioria das pessoas experiencia. Reduzir a culpa e vergonha dos próprios pensamentos.

– Mudar a forma de encarar os próprios pensamentos: reduzir os julgamentos, avaliações e perigosidade dos próprios pensamentos. Reduzir a importância que atribui ao pensamento automático e a necessidade de controlo dos pensamentos.

– Identificar e corrigir todos os erros de pensamento e interpretações erróneas, que estão na base do TOC. Examinar as evidências para os medos e obsessões. Aprender técnicas de mindfulness para se  ter consciência plena/ distanciar/ deixar ir/  os próprios pensamentos.

– Aprender a criar uma hierarquia de objectivos graduais a atingir e reduzir a ansiedade à medida que se expõe aos medos/ gatilhos temidos. Aprender técnicas de relaxamento para as situações/ estímulos.

– Aprender técnicas de exposição imaginada. Ultrapassar os impulsos obsessivos e de realização de rituais. Aprender a viver bem com a incerteza e ultrapassar a necessidade de reasseguramento.

A terapia tem o objectivo de conseguir tolerar a ansiedade sentida quando os comportamentos rituais não são realizados. À medida que os rituais vão deixando de ser realizados, as obsessões vão desaparecendo. Uma boa parte da terapia consiste em reforçar o lado “racional” , em contraposição com a irracionalidade das “obsessões”. O indivíduo vai tendo uma ideia cada vez mais clara que não é ele que deseja executar os rituais, mas é o TOC que leva a tal comportamento.

A TCC centra-se naquilo que acredita que o pensamento obsessivo significa e no comportamento de resposta ao pensamento (a evitação, a compulsão, os actos neutralizantes ou tentativas de controlo). À medida que compreende que o pensamento pode não significar aquilo que pensa, a resposta emocional torna-se menos intensa e diminui a vontade de evitamento ou de realizar uma compulsão.

Outro componente do tratamento é a exposição com prevenção da resposta.

Nunca se deve esperar que os sintomas do Transtorno Obsessivo Compulsivo desapareçam espontaneamente, sem tratamento,  pois é improvável que isso aconteça e frequentemente,  eles agravam-se com o decorrer do tempo. O tratamento mais eficaz para o TOC é a terapia cognitivo- comportamental, que pode ser complementada por alguns medicamentos que proporcionam um alívio da ansiedade e que tornam o indivíduo mais acessível para a terapia psicológica.

 

Referências Bibliográficas:

Abramowitz, J. S. (2009). Getting over OCD: A 10-step workbook for taking back your life. New York: Guilford Press

Ellison, J.M. (Ed.) (1996). Integrative treatment of anxiety disorders. Washington, DC: American Psychiatric Press.

Simpson HB, Liebowitz MR, Foa EB et al. Post-treatment effects of exposure therapy and clomipramine in obsessive-compulsive disorder. Depress Anxiety 2004; 19: 225-33.

Swinson, R.P., Anton, M.M., Rachman, S., & Richter, M.A. (1998). Obsessive-compulsive disorder: Theory, research, and treatment. NY: Guilford Press.

Última Actualização

12-abr-2018